Início » Destaque

Seminário sobre intervenções urbanísticas em Salvador aponta caminhos para a resistência

22 novembro 2010 2 comentários


O Centro de Estudos e Ação Social realizou, no dia 13 de novembro de 2010, o seminário Planejando um Futuro Digno: a Cara de Salvador entre o Passado e o Futuro. Contando com a presença de 78 representantes de 16 entidades da sociedade civil (associações de moradores, movimentos sociais, grupos ambientais, redes locais etc.) e universidades (UNIFACS, UCSal, UNEB, UFBA, IFBA), o seminário tratou especificamente das intervenções urbanísticas projetadas para Salvador em função da Copa FIFA 2014, agrupadas pela Prefeitura Municipal de Salvador sob o nome de fantasia Salvador Capital Mundial.

Manhã

A discussão começou às 9h30min. Lysiê Reis – arquiteta e urbanista, professora da UNEB e da UEFS – e Manoel Nascimento – advogado integrante da Equipe Urbana do CEAS – fizeram uma apresentação de algumas das principais intervenções urbanísticas projetadas para a cidades, usando alguns mapas e painéis elaborados pela própria Prefeitura de Salvador.

As apresentações foram baseadas em pesquisa pela imprensa e em imagens ilustrativas criadas pela Prefeitura para apresentar o projeto Salvador Capital Mundial. Segundo Lysiê Reis, estas imagens ilustrativas “não são um projeto de engenharia”, e são bastante limitadas para análise; desta forma, “é impossível dizer em que rua vão acontecer as obras, mas é possível ter uma ideia aproximada de sua localização”. As obras mostradas foram a Rede Integrada de Transportes (RIT), a Avenida Atlântica — incluindo a ponte a ser construída sobre o Parque de Pituaçu –, a Via Expressa, a Linha Viva, a Nova Cidade Baixa, a Promenade Atlântica, a Via Histórica, e a Ponte Salvador-Itaparica; como esclareceu Manoel Nascimento, “por questões de tempo não será possível comentarmos obras como as drásticas modificações na Orla Atlântica, o Belvedere Atlântico, a Arena Fonte Nova, a Ladeira da Barra, o Metrô, o Parque das Dunas, o Pólo Tecnológico, a ampliação do Aeroporto e o conjunto habitacional que será construído em Cajazeiras”.

As obras apresentadas foram escolhidas segundo seu grau de importância para a realização da Copa 2014 em Salvador. Segundo os expositores, tanto a Avenida Atlântica quanto a Linha Viva funcionarim como corredores viários alternativos à Av. Luiz Viana (Paralela) e à Av. Octavio Mangabeira (Orla) para ligar o Aeroporto ao Centro; a ampliação do Aeroporto servirá para receber os visitantes, assim como a remodelação do porto de Salvador para uso eminentemente turístico; a Cidade Baixa, gentrificada, tem fortes indicativos de concentração de uso hoteleiro; a Via Expressa ligaria esta região à BR-324 e facilitaria o trânsito de lá para o Iguatemi e para o Aeroporto. Os expositores acreditam que tal caráter estruturante dá a estas obras prioridade de execução diante de um prazo de conclusão cada vez mais apertado.

Tarde

Após o almoço, às 14h, os participantes foram divididos em sete grupos para discutir as seguintes perguntas: (a) Como você acha que as obras do projeto Salvador Capital Mundial afetarão sua comunidade, movimento, lugar onde você trabalha etc.? (b) Você conhece alguma campanha, articulação ou mobilização que esteja sendo feita para intervir no processo de realização destas obras? (c) Que instrumentos você pensa serem interessantes para intervir neste processo? Os resultados deste trabalho em grupos foram muito ricos, graças à heterogeneidade dos participantes do evento: num mesmo grupo era possível encontrar gente de Marechal Rondon, Mata Escura, Escada, Sussuarana, Itapagipe, do Instituto de Geografia da UFBA e da Escola de Arquitetura da UFBA. Esta diversidade de vivências e saberes ajudou bastante nas discussões, pois os problemas das obras previstas no projeto Salvador Capital Mundial puderam ser abordados tanto por um viés técnico quanto por um viés experiencial.

Analisando as respostas dadas à primeira pergunta, ficou bastante explícito que ninguém é contra melhorias urbanísticas na cidade, mas todos são contra que tais melhorias sejam usadas para promover a exclusão social. E é justamente a exclusão social que a totalidade dos participantes identifica como um dos resultados adversos das obras do projeto Salvador Capital Mundial. O que se identifica no projeto é a continuidade de práticas antigas da Prefeitura: falta de participação, falta de transparência dos projetos, exclusão social a que estão submetidos os integrantes dos movimentos sociais, ineficiência dos serviços públicos, desrespeito dos governantes quanto à população e uso dos projetos como moeda eleitoral. As obras do projeto Salvador Capital Mundial não resolverão os principais problemas que a cidade apresenta: segregação racial, racismo ambiental, intolerância religiosa, criminalização da probreza, turismo sexual, tráfico de mulheres, falta de serviços sociais importantes para as comunidades. Muito pelo contrário, estes projetos beneficiam as empresas das cadeias imobiliária e turística e podem prejudicar não só moradores, mas também os pequenos vendedores e comerciantes destes bairros que serão atingidos.

Moradores de comunidades impactadas pelas obras (Baixa de Quintas, Centro Histórico, Gamboa de Baixo, Itapagipe, Bairro da Paz) disseram que o projeto tem gerado uma grande sensação de insegurança devido às desapropriações, resultando em sofrimento mental na população local, mas ao mesmo tempo mostraram uma postura firme de quererem permanecer onde estão e serem beneficiados pelos projetos. Em relação ao Miolo há um temor de que quando as remoções aconteçam: a região já não tem infra-estrutura adequada, e na medida que se desloca mais pessoas para esta região devido às desapropriações haverá impactos como aumento da violência, engarrafamentos, falta de transporte etc.

Quanto à segunda pergunta, poucos foram os que disseram conhecer as diversas articulações já criadas para acompanhar as intervenções urbanísticas do projeto Salvador Capital Mundial. Foram citados o Movimento Vozes da Cidade, a campanha A Cidade Também é Nossa e a campanha Se a Copa é Boa Eu Também Quero. Isto demonstra que, apesar de haver preocupação quanto ao projeto em vários setores, a articulação entre eles ainda não está forte o suficiente, e a visibilidade destas campanhas e movimentos ainda não é satisfatória.

Quanto à terceira pergunta, muitas sugestões foram feitas. Propôs-se desde a formação de multiplicadores das informações sobre o projeto Salvador Capital Mundial até a realização de um documentário que expusesse a situação das comunidades diretamente afetadas pelas obras projetadas; da articulação entre entidades e movimentos populares e universidades até a realização de um “Congresso da Cidade” em Salvador. O eixo das propostas foi a articulação entre as comunidades e os movimentos populares afetados pelas obras, tendo em vista o fortalecimento mútuo da resistência a estas intervenções.

Do debate sobre os resultados do trabalho em grupo surgiu a proposta de um fórum sobre o projeto Salvador Capital Mundial, que já tem um primeiro encontro marcado para o dia 18 de dezembro. Este fórum, que se reunirá de forma itinerante para facilitar o conhecimento de diversas comunidades, tentará articular debates com grupos de outras cidades afetadas pelas obras da Copa 2014 (Rio de Janeiro, São Paulo etc.) e buscará contatos com grupos de Johannesburgo para conhecer a experiência de lá.

2 comentários »

  • Fórum “Falta Copa 2014” realiza atividade em Lobato | Fórum de Articulação das Lutas nos Territórios Afetados pela Copa 2014 – Salvador é de todos! said:

    […] Atingidos pela Copa 2014 – Salvador é de Todos começou a partir de um seminário no CEAS, Planejando um Futuro Digno – A cara de Salvador entre o passado e o futuro, ocorrido em novembro de 2010 que reuniu lideranças comunitárias, movimentos sociais, estudantes, […]

  • Rodrigo said:

    O que eu, mero cidadão de Salvador, que trabalha oito horas por dia em horário comercial, poderia fazer para precionar as autoridades como a nossa camara de deputados? Todo mundo fala que a população deve se mobilizar, mas não acho que fazer passeata vá resolver! pelo menos não passeata pra parar o transito! O transito de salvador precisa fluir e a cidade carece de muito planejamento, mão na massa e menos embargos! Fica a pergunta: o que devo fazer?

    Grato!