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Assentamento Mumbuca: Um intercâmbio regional em agroecologia

21 março 2011 2 comentários

No dia 11 de fevereiro 2011, um grupo de 15 acampad@s do acampamento
Lindaura Lacerda, 02 representantes da comunidade Mocó, Encruzilhada – BA,
lideranças do movimento CETA, técnicos do MPA e assessores do CEAS foram
recebidos por algumas famílias do assentamento Mumbuca para participar
do intercâmbio regional em Agroecologia. Esta troca de experiências entre
acampados e assentados no sudoeste baiano é mais um fruto do intercâmbio
que reuniu vários parceiros em novembro 2010, no Instituto de Permaculturas
em Terras Secas, IPÊTERRAS (Irecê – BA).

No primeiro momento foi realizada uma dinâmica de apresentação d@s
participantes, que serviu para integrar o grupo. Logo após, o assentado Durval
convidou a todos para conhecer as roças. Já no meio do caminho, com enxada

em mãos, Durval parou e chamou atenção para todos olharem para o chão:
“Observem aqui, em baixo desta palha da bananeira, o solo é fofo, a terra
úmida é cheia de vida! Essas raízes finas que vêm buscar os nutrientes, são
deste pé de café aqui, há quase 2 metros de distância”

A caminhada continua, uns descobrindo o assentamento e a fartura da zona da
Mata, outros comentado sobre matéria orgânica, adubos químicos, qualidade,
roças e preço de café… O assentamento Mumbuca conta com 48 famílias
assentadas, cada uma com um lote de quatro hectares, principalmente de
café. Do alto foi possível observar o cultivo em curvas de nível e o consórcio do
café com bananeiras e outras culturas. “Depois que conseguirmos um contrato
para vender as bananas em coletivo pelo PAA- (Programa de Aquisição de
Alimentos/CONAB) muit@s companheiros começaram plantar bananeiras
no meio do café; assim conseguimos uma saída da monocultura de café e
ganhamos mais uma fonte de renda.”

Logo depois, ficamos parados em frente a um monte de palha de café
misturado a esterco. A discussão sobre uso de fertilizantes químicos
versus orgânicos foi retomada e ficou bem animada. Contamos com os
esclarecimentos das lideranças do CETA que cursam agronomia e dos técnicos
do MPA para conciliar as ideias formadas. “E verdade, os fertilizantes químicos
produzem um efeito rápido – já os fertilizantes orgânicos dependem de uma
cadeia de processos de micro-organismos responsáveis pela decomposição
da matéria orgânica. Este processo é lento, por isso temos que ter paciência
e continuar em frente. Se compreendermos este mecanismo, se aceitarmos
trabalhar com a natureza, a terra não vai nos decepcionar, ela vai agradecer e
recompensar o nosso esforço”

Foi observado por todos que o orgulho maior do assentamento Mumbuca é,
sem dúvida, a sua área de preservação permanente: são quase 100 hectares
de Mata Atlântica protegida! Rica em nascentes, garante o abastecimento em
água potável de todas as famílias assentadas. “Por isso, temos que ter cuidado
com o trabalho nas roças – evitar trabalhar com agrotóxicos para não poluir a
nossa própria água! Mas, infelizmente nem todo mundo pensa assim.”

Parece que os passarinhos percebem este carinho com a natureza, foram
observados vários ninhos….. apenas dissimulados em cachos de bananas, uma
rolinha até aceita o carinho de Durval!

Já no caminho de volta à agrovila, passamos pela roça do assentado Cabo
Velho. Os visitantes ficaram impressionad@s com a biodiversidade encontrada
nesta roça, um outro mundo ao lado das monoculturas de café. Descobriram
no meio do cafezal de Cabo Velho, doze variedades de bananas, cana-de-
açúcar, cacau, abóboras, maracujá, limão, laranjas, pimenta do reino, batata-
doce, mandioca, vários tipos de feijão, milho, chuchu e um viveiro de árvores
nativas e frutíferas! Mudas de plantas foram disponibilizadas para os visitantes
que levaram-nas, junto com as descobertas feitas ao longo desta caminhada,

para outras comunidades do município.

Depois do almoço reuniram-se na sede do Assentamento para dar início à
oficina tentando responder a pergunta: ”O que é agroecologia para mim?”. Em
dois grupos de trabalho ideias foram confrontadas. Agroecologia é agricultura
orgânica? Existem monoculturas orgânicas? Como produzir respeitando a
natureza, a flora e fauna, proteger o meio ambiente ?

Concluíram que agroecologia é bem mais que algumas « práticas ecológicas ».
Também é o espaço no qual trabalham em harmonia com a natureza, onde
o ser humano faz parte de um todo, no qual divide o espaço com plantas e
animais, preservando a biodiversidade e os recursos, em particular o solo e a
água – buscando um desenvolvimento sustentável.

Durval colocou: “pra mim, a TERRA é que nem uma MÃE”. Isso permitiu
lembrar que o progresso das ciências e tecnologias levaram o homem a crer
que ele pode dominar a natureza – um engano, pois a terra virou um « bem
comercial », tem preço, pode ser comprada e vendida. Mas: quem faria isso
com a sua mãe?

Os jovens pelo CETA trouxeram para a discussão uma dificuldade encontrada
no acampamento Lindaura: “Quando falamos do nosso viveiro de árvores
nativas, vários companheiros nos tratam como doidos e perguntam: para quê
plantar pau?”

Isso mostra que é preciso pensar numa forma de educação ambiental no
acampamento. Isso pode acontecer na própria escola do acampamento –
juntando as forças da professora, dos jovens, dos pais, da coordenação do
acampamento e dos movimentos.

E agora? Fazer o quê? Vimos que muita coisa esta sendo feita – mas sempre
podemos fazer mais ainda! Assim vários encaminhamentos sugiram, dentre
eles: consolidação e ampliação do viveiro de plantas nativas; identificação
e preparação de uma área de reflorestamento no acampamento Lindaura
Lacerda; trocar experiências e aprender o cultivo e uso da palma com
a comunidade do Mocó; buscar parceiros para implementar a educação
ambiental; produzir e aplicar o adubo natural (Biogeo) nas plantações.

Um dos bens mais precioso que temos é a nossa saúde, e ela começa « pela
boca ». É necessário uma alimentação saudável, que precisa de alimentos
saudáveis, que precisam de sementes saudáveis, que cresçam em terras
saudáveis!

Solos carentes só podem produzir frutos carentes que prejudicam a nossa
saúde!

Será que foi por isso que Durval atirou logo a nossa atenção para o
solo?

2 comentários »

  • » Blog Archive » Jovens pelo CETA realizam I Encontro Ecológico do Acampamento Lindaura Lacerda said:

    […] Kull, membro da equipe rural do CEAS, conta que essa atividade é um “desdobramento direto” do Intercâmbio Regional em Agroecologia realizado em Irecê e revela que “O intercâmbio é uma metodologia que a gente acredita muito e […]

  • Asafe Galante said:

    Cara falou tudinho adorei! Se todo mundo pensasse assim agente tava salvo. tou indo para regiao da mumbuca, vou faze uma fazenda ai quem nem aquela de Cabo Velho. flw