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EM MEMÓRIA DE DURVAL RIBEIRO DA SILVA

21 março 2011 Um comentário

Assim que recebi a notícia da morte trágica de Durval Ribeiro da Silva, me veio à memória um vídeo gravado alguns anos atrás na Vila Bahia, Vila do Café, Mumbuca, Cedro e região, intitulado A VIA É LUTA. Durval, juntamente com Zuza, José Mendes, Anscário, Valdomiro, Lindaura, Nilson, Lourenço, Osvaldo, Maria de Lourdes, Miguel César, Anito, Vanderlei, Maria, Gerson, Geni de Jesus, Arnaldo, Salustiano, Evangelina, Juvenal… e tantos outros companheiros e companheiras, é um dos muitos atores daquele documentário que mostra as lutas desta região, na mata de Encruzilhada, onde Durval nasceu e viveu.
Atores (des)conhecidos desta história de vida, que continua sendo uma luta sem fim; a maioria deles, ainda presente entre nós, graças a Deus; alguns, a começar do próprio diretor do documentário, George Melquisedeq, da inesquecível dona Lindaura e agora, por último, Durval Ribeiro da Silva, não mais entre nós, porém sempre presentes nesta caminhada da gente.O roteiro, no vídeo e na vida real, é um roteiro de muita luta, de busca, de sonhos vividos e partilhados. Um roteiro coletivo, popular.

Tanto no vídeo, como na vida real, Durval aparece com seu sorriso largo, olhos claros, fala alegre, despachada, positiva. No vídeo, Durval surge empurrando um carrinho de mão cheio de verduras e frutas do seu “sítio”, como ele gostava de um chamá-lo, um dos lugares mais bonitos, gostosos e aconchegantes que eu conheço, no assentamento Mumbuca, entre a baixada e a mata. Logo em seguida, aparece na feira da Vila do Café, a feira de domingo, sempre cheia de gente e colorida como nunca, vendendo seus produtos, os produtos do seu sítio e, satisfeito com o resultado da sua luta, guardava uns trocados no bolso, com muito orgulho.
Isso tudo, é muito simbólico! Durval, como tantos outros companheiros e companheiras, representa bem essa gente que faz da vida uma eterna luta. Durval era um sem terra como a grande maioria dos moradores da Vila e região; era mais um da “turma de Mata Verde”, como dizia a companheira Lindaura, pois assim eram chamados os sem terra que se juntaram  aos outros da Vila do Café, quando demos início ao processo de desapropriação da fazenda Mumbuca.
Era um sem terra que nunca desistiu da luta, até alcançar o sonho de ter direito a um pedaço de chão, cinco hectares como todos os outros assentados, que vão do córrego falado,  onde construiu uma casa para guardar o mantimento, as ferramentas, cozinhar e descansar, até a mata onde, segundo Durval, ainda havia onça e macaco preguiça.
Um lote igual aos outros, sempre bem cuidado, com café plantado, milho, feijão, banana, tangerina pocan e até uma pequena represa com peixes. Um exemplo de como a reforma agrária pode dar certo, um assentamento, a Mumbuca, dos mais produtivos que eu conheço.
Eu me lembro bem dele, desde o início, quando se começou a discutir a ocupação daquela terra, a fazenda Mumbuca. A gente se reunia na casa de Lindaura mesmo ou no mercado. Havia, naqueles anos, uma conjuntura muito positiva na região, reflexo da chegada do MST na área e das primeiras ocupações que começavam a dar certo, como Boa Sorte e Primavera.

Foi assim que Durval se juntou à turma da Vila que, a tempo, trabalhava nesta terra que pertencia ao doutor Nestor Fonseca, um pedaço de terra realmente especial, abençoado, logo ali, na saída da Vila, com a mata mais bonita da região; um sonho para muitos, para Zuza, cabo vei”, hoje assentados ou, também, para um Adelino qualquer, outro companheiro nonagenário que não aparece no vídeo e que faleceu não muito tempo atrás, no acampamento Lindaura, no mesmo de Encruzilhada, este, sim, sem ter sido assentado aqui, nesta terra dos homens, mas muito bem assentado nas terras de Deus, na memória e na luta de todos que, ainda, estão acampados na fazenda Tamburi a espera de uma solução há tantos anos (já são sete?) que já perdi a conta.

Assim, falar de Durval é como falar de todos eles, lembrar de histórias parecidas, das mesmas lutas, mesmos sonhos, enganos – quantos! – caminhadas, encontros, marchas. E, por falar em marchas, me lembro ainda quando acampamos juntos em Brasília, no encontro nacional do MST, dormindo no barracão da regional Sudoeste; lembro-me de ter marchado com ele na esplanada, de ter estado juntos na manifestação em frente à embaixada dos Estados Unidos e, também, estivemos juntos na marcha de Feira de Santana até Salvador e no acampamento no pátio do INCRA; lembro-me, depois das caminhadas, as pernas inchadas de Durval, aquelas varizes enormes que não  aguentavam mais tanta marcha, tanta espera, tanta caminhada para alcançar o sonho tão esperado de uma terra pra plantar.
Quando a gente chegava ao assentamento Mumbuca para alguma reunião na sede da Associação, a parada era certa, em frente à casa de Carlito e Geni e, logo ali pertinho, na casa de Durval. Era só chegar, que a barulheira começava; tomamos muito café e chá; comemos juntos muitas vezes ali mesmo, na cobertura da área.
A conversa de seu Durval não guardava segredo; gostava de conversar alto, ouvia-se de longe; era o seu jeito, seja ali, na sua latada, seja na reunião da Associação, da qual era Presidente, com muito orgulho, diga-se de passagem. Ele chegava com as pastas de baixo do braço, fazia aquele fuzuê, cruzava as mãos e embolava a fala, ia logo direto ao assunto e, na maioria das vezes, já queria dar a solução; bem que, mais de uma, pedi a ele de ser menos precipitado, menos impulsivo, de pensar melhor antes de falar, de ouvir mais, mas não tinha jeito.
Durval era assim mesmo, sem freio e sem muita censura, ou melhor, sem muita estratégia. Durval gostava, mesmo, de um samba e da folia de reis, sobretudo. Falava de Terno de Reis com muita paixão; aliás, eu creio que no Terno de Reis Durval se realizava tanto quanto, se não mais, que nas outras tarefas que fizeram parte da vida dele, uma luta que valeu a pena, e como.
O certo é que era difícil ver Durval parado ou calado! Nas reuniões da associação, na feira, vendendo os produtos da roça ou ajudando Bezinha, a companheira dele que tinha barraca de roupas, nos encontros, nas marchas, nas mobilizações, Durval era presente, participava mesmo, não ficava atrás não.

Pra ele, não tinha tempo ruim; dava pra contar com ele, sempre. “Eu não me chamo Durval se eu não vou nessa”, me disse naquela manhã de 15 de novembro quando, de  madrugada, a turma toda da Mumbuca – toda não, faltavam alguns, mas esta já é outra história! – se juntou em frente à sede da associação e foram acordar Hugo para exigir a parte de café que era dos assentados e desocupar de vez a área, pois ali seria o coletivo do assentamento.
Amigo e companheiro DURVAL RIBEIRO DA SILVA, junto com seus companheiros e companheiras de caminhada, quero levar pra você um punhado de terra, da sua terra, para te agasalhar melhor nela e sentir, mais uma vez, o quanto é cheirosa, fresca, morena; ainda não é toda livre, como queríamos e como tu querias, mas já te pertenceu, já está menos concentrada graças, também, a você e à sua luta.

Obrigado, companheiro Durval! Até um dia, pois A VIDA É LUTA E A CAMINHADA CONTINUA!

Seu amigo e companheiro, Daniel

EM MEMÓRIA DE DURVAL RIBEIRO DA SILVA

Assim que recebi a notícia da morte trágica de Durval Ribeiro da Silva, me veio à memória
um vídeo gravado alguns anos atrás na Vila Bahia, Vila do Café, Mumbuca, Cedro e região,
intitulado A VIA É LUTA. Durval, juntamente com Zuza, José Mendes, Anscário, Valdomiro,
Lindaura, Nilson, Lourenço, Osvaldo, Maria de Lourdes, Miguel César, Anito, Vanderlei,
Maria, Gerson, Geni de Jesus, Arnaldo, Salustiano, Evangelina, Juvenal… e tantos outros
companheiros e companheiras, é um dos muitos atores daquele documentário que mostra
as lutas desta região, na mata de Encruzilhada, onde Durval nasceu e viveu. Atores (des)
conhecidos desta história de vida, que continua sendo uma luta sem fim; a maioria deles, ainda
presente entre nós, graças a Deus; alguns, a começar do próprio diretor do documentário,
George Melquisedeq, da inesquecível dona Lindaura e agora, por último, Durval Ribeiro da

Silva, não mais entre nós, porém sempre presentes nesta caminhada da gente.

O roteiro, no vídeo e na vida real, é um roteiro de muita luta, de busca, de sonhos vividos e
partilhados. Um roteiro coletivo, popular. Tanto no vídeo, como na vida real, Durval aparece
com seu sorriso largo, olhos claros, fala alegre, despachada, positiva. No vídeo, Durval surge
empurrando um carrinho de mão cheio de verduras e frutas do seu “sítio”, como ele gostava
de um chamá-lo, um dos lugares mais bonitos, gostosos e aconchegantes que eu conheço,
no assentamento Mumbuca, entre a baixada e a mata. Logo em seguida, aparece na feira da
Vila do Café, a feira de domingo, sempre cheia de gente e colorida como nunca, vendendo
seus produtos, os produtos do seu sítio e, satisfeito com o resultado da sua luta, guardava uns
trocados no bolso, com muito orgulho.

Isso tudo, é muito simbólico! Durval, como tantos outros companheiros e companheiras,
representa bem essa gente que faz da vida uma eterna luta. Durval era um sem terra como
a grande maioria dos moradores da Vila e região; era mais um da “turma de Mata Verde”,
como dizia a companheira Lindaura, pois assim eram chamados os sem terra que se juntaram
aos outros da Vila do Café, quando demos início ao processo de desapropriação da fazenda
Mumbuca. Era um sem terra que nunca desistiu da luta, até alcançar o sonho de ter direito a um
pedaço de chão, cinco hectares como todos os outros assentados, que vão do córrego falado,
onde construiu uma casa para guardar o mantimento, as ferramentas, cozinhar e descansar,
até a mata onde, segundo Durval, ainda havia onça e macaco preguiça. Um lote igual aos
outros, sempre bem cuidado, com café plantado, milho, feijão, banana, tangerina pocan e até
uma pequena represa com peixes. Um exemplo de como a reforma agrária pode dar certo, um
assentamento, a Mumbuca, dos mais produtivos que eu conheça.

Eu me lembro bem dele, desde o início, quando se começou a discutir a ocupação daquela terra,
a fazenda Mumbuca. A gente se reunia na casa de Lindaura mesmo ou no mercado. Havia,
naqueles anos, uma conjuntura muito positiva na região, reflexo da chegada do MST na área e
das primeiras ocupações que começavam a dar certo, como Boa Sorte e Primavera. Foi assim
que Durval se juntou à turma da Vila que, a tempo, trabalhava nesta terra que pertencia ao
doutor Nestor Fonseca, um pedaço de terra realmente especial, abençoado, logo ali, na saída
da Vila, com a mata mais bonita da região; um sonho para muitos, para Zuza, cabo vei”, hoje
assentados ou, também, para um Adelino qualquer, outro companheiro nonagenário que não
aparece no vídeo e que faleceu não muito tempo atrás, no acampamento Lindaura, no mesmo
de Encruzilhada, este, sim, sem ter sido assentado aqui, nesta terra dos homens, mas muito bem
assentado nas terras de Deus, na memória e na luta de todos que, ainda, estão acampados na
fazenda Tamburi a espera de uma solução há tantos anos (já são sete?) que já perdi a conta.

Assim, falar de Durval é como falar de todos eles, lembrar de histórias parecidas, das mesmas
lutas, mesmos sonhos, enganos – quantos! – caminhadas, encontros, marchas. E, por falar em
marchas, me lembro ainda quando acampamos juntos em Brasília, no encontro nacional do
MST, dormindo no barracão da regional Sudoeste; lembro-me de ter marchado com ele na
esplanada, de ter estado juntos na manifestação em frente à embaixada dos Estados Unidos e,
também, estivemos juntos na marcha de Feira de Santana até Salvador e no acampamento no
pátio do INCRA; lembro-me, depois das caminhadas, as pernas inchadas de Durval, aquelas
varizes enormes que não agüentavam mais tanta marcha, tanta espera, tanta caminhada para
alcançar o sonho tão esperado de uma terra pra plantar.

Quando a gente chegava ao assentamento Mumbuca para alguma reunião na sede da
Associação, a parada era certa, em frente à casa de Carlito e Geni e, logo ali pertinho, na casa
de Durval. Era só chegar, que a barulheira começava; tomamos muito café e chá; comemos
juntos muitas vezes ali mesmo, na cobertura da área. A conversa de seu Durval não guardava
segredo; gostava de conversar alto, ouvia-se de longe; era o seu jeito, seja ali, na sua latada,
seja na reunião da Associação, da qual era Presidente, com muito orgulho, diga-se de passagem.
Chegava com as pastas de baixo do braço, fazia aquele fuzuê, cruzava as mãos e embolava a

fala, ia logo direto ao assunto e, na maioria das vezes, já queria dar a solução; bem que, mais
de uma, pedi a ele de ser menos precipitado, menos impulsivo, de pensar melhor antes de falar,
de ouvir mais, mas não tinha jeito, Durval era assim mesmo, sem freio e sem muita censura,
ou melhor, sem muita estratégia. Durval gostava, mesmo, de um samba e da folia de reis,
sobretudo. Falava de Terno de Reis com muita paixão; aliás, eu creio que no Terno de Reis
Durval se realizava tanto quanto, se não mais, que nas outras tarefas que fizeram parte da vida
dele, uma luta que valeu a pena, e como.

O certo é que era difícil ver Durval parado ou calado! Nas reuniões da associação, na feira,
vendendo os produtos da roça ou ajudando Bezinha, a companheira dele que tinha barraca de
roupas, nos encontros, nas marchas, nas mobilizações, Durval era presente, participava mesmo,
não ficava atrás não. Pra ele, não tinha tempo ruim; dava pra contar com ele, sempre. “Eu não
me chamo Durval se eu não vou nessa”, me disse naquela manhã de 15 de novembro quando, de
madrugada, a turma toda da Mumbuca – toda não, faltavam alguns, mas esta já é outra história!
– se juntou em frente à sede da associação e foram acordar Hugo para exigir a parte de café que
era dos assentados e desocupar de vez a área, pois ali seria o coletivo do assentamento.

Amigo e companheiro DURVAL RIBEIRO DA SILVA, junto com seus companheiros e
companheiras de caminhada, quero levar pra você um punhado de terra, da sua terra, para te
agasalhar melhor nela e sentir, mais uma vez, o quanto é cheirosa, fresca, morena; ainda não é
toda livre, como queríamos e como tu querias, mas já te pertenceu, já está menos concentrada
graças, também, a você e à sua luta.

Obrigado, companheiro Durval! Até um dia, pois A VIDA É LUTA E A CAMINHADA
CONTINUA!

Seu amigo e companheiro, DanielEM MEMÓRIA DE DURVAL RIBEIRO DA SILVA

Assim que recebi a notícia da morte trágica de Durval Ribeiro da Silva, me veio à memória
um vídeo gravado alguns anos atrás na Vila Bahia, Vila do Café, Mumbuca, Cedro e região,
intitulado A VIA É LUTA. Durval, juntamente com Zuza, José Mendes, Anscário, Valdomiro,
Lindaura, Nilson, Lourenço, Osvaldo, Maria de Lourdes, Miguel César, Anito, Vanderlei,
Maria, Gerson, Geni de Jesus, Arnaldo, Salustiano, Evangelina, Juvenal… e tantos outros
companheiros e companheiras, é um dos muitos atores daquele documentário que mostra
as lutas desta região, na mata de Encruzilhada, onde Durval nasceu e viveu. Atores (des)
conhecidos desta história de vida, que continua sendo uma luta sem fim; a maioria deles, ainda
presente entre nós, graças a Deus; alguns, a começar do próprio diretor do documentário,
George Melquisedeq, da inesquecível dona Lindaura e agora, por último, Durval Ribeiro da

Silva, não mais entre nós, porém sempre presentes nesta caminhada da gente.

O roteiro, no vídeo e na vida real, é um roteiro de muita luta, de busca, de sonhos vividos e
partilhados. Um roteiro coletivo, popular. Tanto no vídeo, como na vida real, Durval aparece
com seu sorriso largo, olhos claros, fala alegre, despachada, positiva. No vídeo, Durval surge
empurrando um carrinho de mão cheio de verduras e frutas do seu “sítio”, como ele gostava
de um chamá-lo, um dos lugares mais bonitos, gostosos e aconchegantes que eu conheço,
no assentamento Mumbuca, entre a baixada e a mata. Logo em seguida, aparece na feira da
Vila do Café, a feira de domingo, sempre cheia de gente e colorida como nunca, vendendo
seus produtos, os produtos do seu sítio e, satisfeito com o resultado da sua luta, guardava uns
trocados no bolso, com muito orgulho.

Isso tudo, é muito simbólico! Durval, como tantos outros companheiros e companheiras,
representa bem essa gente que faz da vida uma eterna luta. Durval era um sem terra como
a grande maioria dos moradores da Vila e região; era mais um da “turma de Mata Verde”,
como dizia a companheira Lindaura, pois assim eram chamados os sem terra que se juntaram
aos outros da Vila do Café, quando demos início ao processo de desapropriação da fazenda
Mumbuca. Era um sem terra que nunca desistiu da luta, até alcançar o sonho de ter direito a um
pedaço de chão, cinco hectares como todos os outros assentados, que vão do córrego falado,
onde construiu uma casa para guardar o mantimento, as ferramentas, cozinhar e descansar,
até a mata onde, segundo Durval, ainda havia onça e macaco preguiça. Um lote igual aos
outros, sempre bem cuidado, com café plantado, milho, feijão, banana, tangerina pocan e até
uma pequena represa com peixes. Um exemplo de como a reforma agrária pode dar certo, um
assentamento, a Mumbuca, dos mais produtivos que eu conheça.

Eu me lembro bem dele, desde o início, quando se começou a discutir a ocupação daquela terra,
a fazenda Mumbuca. A gente se reunia na casa de Lindaura mesmo ou no mercado. Havia,
naqueles anos, uma conjuntura muito positiva na região, reflexo da chegada do MST na área e
das primeiras ocupações que começavam a dar certo, como Boa Sorte e Primavera. Foi assim
que Durval se juntou à turma da Vila que, a tempo, trabalhava nesta terra que pertencia ao
doutor Nestor Fonseca, um pedaço de terra realmente especial, abençoado, logo ali, na saída
da Vila, com a mata mais bonita da região; um sonho para muitos, para Zuza, cabo vei”, hoje
assentados ou, também, para um Adelino qualquer, outro companheiro nonagenário que não
aparece no vídeo e que faleceu não muito tempo atrás, no acampamento Lindaura, no mesmo
de Encruzilhada, este, sim, sem ter sido assentado aqui, nesta terra dos homens, mas muito bem
assentado nas terras de Deus, na memória e na luta de todos que, ainda, estão acampados na
fazenda Tamburi a espera de uma solução há tantos anos (já são sete?) que já perdi a conta.

Assim, falar de Durval é como falar de todos eles, lembrar de histórias parecidas, das mesmas
lutas, mesmos sonhos, enganos – quantos! – caminhadas, encontros, marchas. E, por falar em
marchas, me lembro ainda quando acampamos juntos em Brasília, no encontro nacional do
MST, dormindo no barracão da regional Sudoeste; lembro-me de ter marchado com ele na
esplanada, de ter estado juntos na manifestação em frente à embaixada dos Estados Unidos e,
também, estivemos juntos na marcha de Feira de Santana até Salvador e no acampamento no
pátio do INCRA; lembro-me, depois das caminhadas, as pernas inchadas de Durval, aquelas
varizes enormes que não agüentavam mais tanta marcha, tanta espera, tanta caminhada para
alcançar o sonho tão esperado de uma terra pra plantar.

Quando a gente chegava ao assentamento Mumbuca para alguma reunião na sede da
Associação, a parada era certa, em frente à casa de Carlito e Geni e, logo ali pertinho, na casa
de Durval. Era só chegar, que a barulheira começava; tomamos muito café e chá; comemos
juntos muitas vezes ali mesmo, na cobertura da área. A conversa de seu Durval não guardava
segredo; gostava de conversar alto, ouvia-se de longe; era o seu jeito, seja ali, na sua latada,
seja na reunião da Associação, da qual era Presidente, com muito orgulho, diga-se de passagem.
Chegava com as pastas de baixo do braço, fazia aquele fuzuê, cruzava as mãos e embolava a

fala, ia logo direto ao assunto e, na maioria das vezes, já queria dar a solução; bem que, mais
de uma, pedi a ele de ser menos precipitado, menos impulsivo, de pensar melhor antes de falar,
de ouvir mais, mas não tinha jeito, Durval era assim mesmo, sem freio e sem muita censura,
ou melhor, sem muita estratégia. Durval gostava, mesmo, de um samba e da folia de reis,
sobretudo. Falava de Terno de Reis com muita paixão; aliás, eu creio que no Terno de Reis
Durval se realizava tanto quanto, se não mais, que nas outras tarefas que fizeram parte da vida
dele, uma luta que valeu a pena, e como.

O certo é que era difícil ver Durval parado ou calado! Nas reuniões da associação, na feira,
vendendo os produtos da roça ou ajudando Bezinha, a companheira dele que tinha barraca de
roupas, nos encontros, nas marchas, nas mobilizações, Durval era presente, participava mesmo,
não ficava atrás não. Pra ele, não tinha tempo ruim; dava pra contar com ele, sempre. “Eu não
me chamo Durval se eu não vou nessa”, me disse naquela manhã de 15 de novembro quando, de
madrugada, a turma toda da Mumbuca – toda não, faltavam alguns, mas esta já é outra história!
– se juntou em frente à sede da associação e foram acordar Hugo para exigir a parte de café que
era dos assentados e desocupar de vez a área, pois ali seria o coletivo do assentamento.

Amigo e companheiro DURVAL RIBEIRO DA SILVA, junto com seus companheiros e
companheiras de caminhada, quero levar pra você um punhado de terra, da sua terra, para te
agasalhar melhor nela e sentir, mais uma vez, o quanto é cheirosa, fresca, morena; ainda não é
toda livre, como queríamos e como tu querias, mas já te pertenceu, já está menos concentrada
graças, também, a você e à sua luta.

Obrigado, companheiro Durval! Até um dia, pois A VIDA É LUTA E A CAMINHADA
CONTINUA!

Seu amigo e companheiro, Daniel

Um comentário »

  • Ana Claudia said:

    Olá Daniel,

    Sou Ana Claudia filha de Lindaura, é um prazer muito grande saber que guardas dos companheiro da vila do café e região, assim como de minha mãe, boas lembranças, e quero que saibas que nós temos de ti as melhores recordações. É sempre com muito prazer relembrar os bons tempos de lutas e conquistas, saber que somos uma comunidade com uma historia completa cheias de crenças, respeito e solidariedade, com seus herois e heroinas fortes e valentes em busca do objetivo final, que era o desenvolvimento da nossa comunidade. Quero enormemente agradecer pelo apoio prestado a nós em todos momentos que necessitamos e parabeniza-lo por ser uma pessoa carismatica, humilde, serena e de um conhecimento inexgotavel.

    Gostaria muito de ver nos novos representates os fortes que um dia tivemos, que apesar de tantos desenganos e respostas frustadas não desistinham até conseguir o objetivo final que era o bem de todos.

    Muito obrigada pelo apoio prestado sempre, que Deus o abençoe hoje e sempre e lhe dê muito sucesso em sua trajetoria.

    Ana Claudia Lacerda Santos.
    E-mail: anaclst@ig.com.br