Via Movimento dos Pequenos Agricultores-BA

Famílias camponesas organizadas no MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores), acampadas em São Francisco do Conde, na Região Metropolitana de Salvador, denunciam a forma arbitrária e violenta como vem sendo conduzido o processo de despejo do território onde vivem e produzem há cerca de dez meses.
Na segunda-feira (19/01/2025), representantes do Estado estiveram no acampamento e informaram, por meio de uma delegada, que haveria uma ação de despejo marcada para o dia 27 de janeiro, dando às famílias apenas oito dias para deixarem o local. No entanto, naquele momento, nenhuma liminar foi apresentada, tampouco houve qualquer comunicação formal ou explicação jurídica sobre a situação.
Somente na quinta-feira, dia 22, o acampamento teve acesso à liminar que embasa o despejo. Trata-se de uma decisão expedida ainda no mês de setembro, mas que nunca havia sido comunicada às famílias, que tinham total desconhecimento de sua existência. Na prática, quando a liminar veio a público, restavam apenas poucos dias para que dezenas de famílias conseguissem se organizar para sair do território.
Enquanto isso, a empresa Acelen, tem intensificado o assédio direto aos acampados, afirmando que, caso não saiam até o dia 27, “não virão para conversar”. Há relatos, inclusive, de ofertas de dinheiro para que as famílias se desmobilizem individualmente, numa clara tentativa de dividir o acampamento, enfraquecer a organização coletiva e desarticular a luta.
O que as famílias reivindicam não é o conflito, mas tempo e dignidade. Tempo para desmontar barracos construídos com esforço coletivo. Tempo para retirar seus pertences. Tempo para aproveitar, ao menos parcialmente, as plantações já cultivadas. São dez meses de ocupação, dez meses de trabalho e de vida construída naquele território. Isso não se desfaz em uma semana.
A realidade vivida pelas famílias revela que, mesmo em pouco tempo, a produção já é concreta e visível. Hortas, roçados, plantas medicinais e alimentos diversos expressam não apenas a necessidade, mas a vontade profunda de produzir, de cuidar da terra e de garantir comida saudável.
Dona Dinha, de 67 anos, resume esse sentimento:
“Eu sempre sonhei em ter um pedaço de terra para viver. Foi através da organização coletiva que a gente conseguiu resistir e cultivar. Aqui eu tive a oportunidade de produzir meu próprio alimento.”
Yoná também fala da dimensão que vai além da produção:
“Aqui eu tenho paz. Tenho a oportunidade de construir uma relação de amor com a terra, de produzir alimentos saudáveis e de cultivar meu horto medicinal.”
“Em sete dias não se organiza a retirada de dez meses de vida”, afirmam os acampados. O que está em disputa não é apenas a posse da terra, mas o direito das famílias camponesas de existir, produzir alimentos e viver com dignidade.
Diante dessa situação, o acampamento faz um chamado público de solidariedade desde movimentos sociais, parceiros, organizações populares, entidades de direitos humanos e à sociedade em geral. É preciso apoio político, social e humano para enfrentar mais esse episódio de violência contra quem luta pelo direito à terra.