Troca de sementes mobiliza camponeses na comunidade Ponte Martiniano Rocha em Encruzilhada-BA

A Troca de sementes e saberes “Rio Pardo vivo e corrente – sementes crioulas e defesa do território” reuniu no dia 19 de abril dezenas de camponeses na Escola Municipal Martiniano Rocha, na comunidade da Ponte Martiniano, em um momento de articulação e debate entre agricultores, lideranças e organizações populares.
Realizada pela Associação de Produtores da Ponte Martiniano Rocha, a Articulação Rio Pardo Vivo e Corrente e o Centro de Estudos e Ação Social, o encontro foi marcado pelo tema da defesa dos territórios camponeses, da leitura da realidade econômica e social da região e das saídas populares para o enfrentamento dos desafios socioambientais.
A atividade foi iniciada com um café coletivo e seguida por uma roda de conversa com o tema das sementes crioulas. Os camponeses relataram as transformações ocorridas nas últimas décadas na forma de produzir e armazenar sementes, sobretudo com o avanço da lógica de produção do agronegócio e da produção de sementes transgênicas associadas ao uso de agrotóxicos.






O desafio das sementes crioulas
O debate trouxe a reflexão sobre o uso e o controle das sementes pelas famílias camponesas como uma importante ferramenta de defesa do território e de convivência com o bioma. A diversidade dos depoimentos revelou como cada comunidade guardava variedades de sementes adaptadas à sua região, e assim condicionavam o plantio para melhorar a qualidade e resistir melhor à seca, por exemplo.
Essa situação começa a mudar depois que do processo de monopolização das sementes por grandes empresas multinacionais e a intensificação da lógica comercial para a aquisição de sementes fundamentais para a alimentação humana.
Nessa lógica, a diversidade dá lugar a sementes padronizadas e associadas a agrotóxicos, fortalecendo toda uma cadeia de apropriação dos bens da natureza, da genética das sementes e da produção e comercialização dos produtos camponeses.
A situação se agrava com os efeitos da crise climática que as comunidades sentem com cada vez mais intensidade. Chuvas sem regularidade e períodos de seca imprevistos foram relatados pelos participantes como fenômenos que dificultam a produção e que preocupam o futuro no campo.





“Autonomia, biodiversidade, união e resistência!”
Apesar dos desafios, as sementes crioulas resistem através do cuidado de inúmeras famílias camponesas. A Troca de sementes da Ponte Martiniano revelou um pequena parte dessas experiências, com variedades crioulas de milhos, feijões, abóbora, maxixe, entre outras, além de mudas de plantas nativas e frutíferas, vindas da própria comunidade e dos viveiros de mudas da comunidade Mangerona na vila do Café (Encruzilhada-BA) e da Lagoa Verde em Cândido Sales-BA.
A atividade mostrou a importância da articulação entre as comunidades do Rio Pardo para a resistência das sementes crioulas e, consequentemente, para a defesa dos territórios que compõem esse corpo hídrico. A articulação e a organização nesses espaços se constituem como uma barreira diante de tantos desafios relacionados à crise climática, aos efeitos dos agrotóxicos, ao avanço dos monocultivos e ao avanço da mineração, através de pesquisas e da especulação de terras para a construção do mineroduto Grão Mogol/Ilhéus.
Para o presidente da Associação da Ponte Martiniano, Christian Brito, esse processo de articulação “é algo muito importante, pois as trocas de sementes fomentam a autonomia, biodiversidade, união e resistência.” O jovem agricultor defende que espaços como esses são fundamentais para o debate da geração de renda e da segurança alimentar no campo: “é uma experiência tamanha, um trabalho de grande valia. É o agricultor cuidando do fruto com suas próprias mãos”, conclui.
