O Largo de São Lázaro, em Salvador, foi palco para o lançamento do documentário “Terra de alguém? Comunidade de São Lázaro: vozes pela permanência” no último sábado (16), produção construída pela própria comunidade em parceria com a Produtora Bheufilmes. A atividade reuniu moradores, apoiadores, coletivos e organizações sociais em torno da exibição da obra e de uma roda de conversa sobre direito à cidade, permanência no território e regularização fundiária.
O documentário nasce das histórias e vivências de moradores da comunidade de São Lázaro, que há anos enfrentam ameaças de despejo e seguem mobilizados em defesa do direito de permanecer no território. A narrativa reúne memórias, relatos e experiências que evidenciam a relação histórica, afetiva, cultural e econômica da comunidade com o espaço onde vivem.
Além de retratar a realidade local, a produção também dialoga com um cenário mais amplo de disputa urbana em Salvador, marcado pelo avanço da especulação imobiliária sobre territórios populares e tradicionais, atingindo principalmente comunidades negras.
Após a exibição, foi realizada a roda de conversa “A comunidade de São Lázaro: pelo direito à vida, à regularização e à permanência no território”. Participaram do debate Caroline Brito, moradora da comunidade e idealizadora do projeto; Luciana Silveira, do Centro de Estudos e Ação Social (CEAS); Rita Santa Rita, do Grupo de Mulheres do Alto das Pombas (GRUMAP); Juan Gonçalves, advogado e assessor popular do CEAS; e Bheu, da Bheufilmes.
Moradora da comunidade e idealizadora do filme, Caroline Brito destacou que a proposta do documentário é fazer com que a história de São Lázaro circule para além do território. “Mais do que um registro, o documentário também é uma forma de memória, denúncia e afirmação das nossas vivências enquanto moradores que enfrentam diariamente esse contexto de disputa, violência e apagamento”, afirmou.
Caroline também comentou sobre a recepção da obra pela própria comunidade. Segundo ela, o momento foi de muito emoção porque permitiu que moradores se reconhecessem na narrativa construída coletivamente. “Existe algo muito potente quando moradores se veem retratados de forma humana, com suas histórias, afetos, dores e formas de resistência”, disse.
Para a idealizadora, o documentário também pode contribuir para ampliar o debate público sobre os impactos da disputa territorial vivida pela comunidade. “Espero que ele contribua para fortalecer a luta dos moradores e para que nossas histórias não sejam reduzidas apenas a estatísticas ou narrativas superficiais, mas entendidas a partir da perspectiva de quem vive tudo isso de perto”, declarou.
Mais do que um registro audiovisual, “Terra de alguém?” se afirma como uma ferramenta política, artística e simbólica de afirmação da vida coletiva em São Lázaro, reforçando a permanência, a memória e a organização comunitária como elementos centrais da luta pelo território.










